Foto: Ivson LunaHoje senti saudade da casa da Vó. Da galinha guisada, do Tang de laranja e da Cream Cracker com manteiga. Da bunda na cadeira de balanço e os desenhos animados a quatro palmos da cara. “Luciana, já falei pra assistir a televisão de longe. Faz mal a vista!”. Faz mal mesmo, Painho. Agora eu sei! Estava apenas sentando na cadeira da Dona Luzenita, já perfeitamente posicionada na frente da TV, só deixando espaço pras perninhas magricelas.
Saudade das papoulas vermelhas. Das mangas no quintal. E siriguelas. De imaginar que aquilo tudo era um bosque encantado e o paredão de água era uma cachoeira. De fuçar o sótão da empregada. “Futucar” o quarto da Tia Dio, calçar todos os seus sapatos dos anos 60 e me sentir uma chic senhora no grande banheiro em tons de azul e branco. Dos banhos na banheira de frente pro espelhão, louca para usar os sais. Do telefone vermelho, mais que “estiloso”.
Do chão frio. De ser top model de frente pra parede espelhada da sala de piso parquet. De não saber tocar nada naquele piano (mas ter tentado aprender "Parabéns pra você" e o tema do Danoninho... "Me dá, me dá, me dá...") e passar horas olhando a coleção de bonecas nas cristaleiras – que, mais tarde, virariam personagem de matéria minha. De querer ter um bar igual aquele, quando eu tivesse minha própria casa.
Do meu retrato com nove meses de vida, no colo da amada prima Lu, então com seus 19 anos. De brincar com as delicadas ampulhetas, morrendo de medo de quebrá-las. Ainda não sabia que a velocidade do tempo podia acelerar assim. Da minha coleção de gibis da Turma da Mônica, endereçada a casa da Vó, já que eu não morava – me escondia quase fora da cidade. Do meu irmão pequeno, da minha prima; os companheiros de aventuras.
Do Tio Wagner entrando com o pão quentinho a cada fim de tarde...
Das expedições por cada centímetro quadrado daquela casa encantada. Conheço cada detalhe. Lembro de cada cheiro. Saudade dos dias de chuva. De só ficar vendo desenhos animados, com o olor de terra molhada subindo pela janela ao lado. As horas eram mais longas... Saudade dos jantares de Ano Novo. Que saudade...! Do entra e sai de parentes na casa da matriarca. De sonhar em ter um namorado pra sentar comigo no banquinho de mármore branco da varanda da frente, construído – segundo ela – com este fim...
Hoje, só as lembranças e o pouco que sobrou da casa. As ruínas do lindo império que ela construiu, sozinha. Saudade dela.
Que esteja em paz, Vó; você merece.
Que esteja em paz, Vó; você merece.
2 comentários:
...
prima??!! AMO!!!
Emocionante! Lindo Lu...
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