Frase da vez

Frase da vez: "I'm free but I'm focused [...] I'm lost but I'm hopeful, baby" (Alanis Morissette)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Saudade do nada e de tudo

Saudade do nada.
Às vezes essa é a definição a que chego quando sinto falta de Barcelona. Geralmente quando a batida de alguma música, um som, ou mesmo o silêncio (muitas vezes ele) me causam uma nostalgia sem objeto, sem foco, sem sujeito.
Dos amigos, restam poucos por lá.
Da rotina, da cidade, da logística urbana, da cultura, das possibilidades: normal essa lembrança que sempre vai existir (e já falo dela quando em vez) de coisas que ocuparam o seu lugar no seu devido - e longo - tempo e que não cabem, tampouco são tão desejadas, na vida de hoje.

Mas algo intangível se faz forte, se faz vivo. É algo no ar, algo do clima, que está no vento e no tempo. É algo que está imprimido no ritmo que rege a relação espaço/tempo daquela cidade. O tempo é um para cada lugar. O tempo não é igual em dois lugares.

Ou talvez seja a vida própria que aquele lugar tem (independente de quem o habita, de quem o faz bom para uns e ruim para outros), à revelia do que se quis ou do que se queira para ele.

E esse algo intocável, invisível, faz com que seja possível sentir sua falta. Falta desse nada, que não tem nome, que não se define, que não é. Ou... ou até que é, mas deve ser aqui dentro. Não deve ser algo da cidade... não... Pode ser algo meu, que surge influenciado pelos inputs do lugar.
É isso. É saudade de como e do que eu sentia estando ali.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O 4º fim.

Como algumas coisas ainda mexem com a gente depois de TANTO tempo, tanta cura, tantos fins...?

É um questionamento quente e desesperado, eu sei (!), mas lá vai, outra vez (sou humana, portanto POSSO fazê-lo):
Existirá um fim? Uno, indivisível, não-multiplicável, irrepetível, que não deixe manchas? Que finde tudo isso, de verdade? Haverá?

[E nisso tudo, paro pra ver o quanto é engraçado o modo como a gente se afeiçoa a algumas poesias e não entende, de cara, os motivos. Algum tempo depois, a poesia se encaixa na depuração de um sentimento que até então não tinha dado as caras. E aí a gente entende toda a afeição prévia.
Era pressentimento.
A gente pressente, sim, muito antes de saber...]

Lembra que no primeiro toque deu choque?
Lembra que você mudou de cor?
Queria me enjoar de você
Do doce do seu beijinho
Do cheiro, do jeito, da fauna e da flora
Ah, ah, ah...


Lembra dos dias azuis? Que luz!
Lembra seu corpo junto do meu?
Ah, ah, ah...
Queria me enjoar de você
Mas não consigo
O jeito é deixar doer pra ver se sara


Eu não vou fazer mais nada!
Nem vou me lembrar de te esquecer...


Voltando da sua casa ontem 
Reparei que eu tinha ficado lá!

Voltando da sua casa ontem 
Reparei que eu tinha ficado lá!

horto sessions#1_dinda parte 2 from horto filmes | clara cavour on Vimeo.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Cansou.

Pra quê?
Pra quê?
Uma, dez.
Trinta, quarenta, cem...
Cento e vinte vezes, pra quê?
E me pergunto outra vez: pra quê?
"Quês" são mistérios. São instigações. Provocação.
O problema todo está no "para".

domingo, 19 de dezembro de 2010

A bailarina

Entrei, atrasada (o que não é novidade), no teatro já escuro, tateando cuidadosamente os degraus com os saltos para não tropeçar. Sua mãe havia alertado para que chegássemos cedo, já que ela seria uma das primeiras a se apresentar. Não foi. Entraria, apenas, na 11ª dança do espetáculo. Mas a espera foi necessária. Tempo de acomodar-se na cadeira, entender o enredo e ansiar vê-la. Deu tempo, também, para perceber que, entre as 28 danças bem recheadas de alunos, sua coreografia era uma das únicas com poucos bailarinos: apenas três pequenas - e a minha estrelinha seria uma delas.
No roteiro, o achar-se e perder-se de um tempo em que as prioridades se elencam sob critérios invertidos ou, talvez, confusos...
Quais as suas prioridades?
Naquele momento, a minha era estar mais perto dela, depois de haver passado praticamente metade da sua vida quilômetros distante. Era constatar, pela primeira vez, a evolução daqueles pliés e dépliés ainda tão incertos, mas já tão graciosos e cheios de personalidade.
Dizem muitos que ela é minha réplica, cópia, miniatura. Não tanto fisicamente, mas em temperamento e gênio. Trejeitos e expressividade. Em personalidade, mesmo. E vê-la ali, no palco, me fez sentir algo semelhante àquele prazer que, creio, só os pais conhecem bem: o da materialização de desejos tão nossos, projetados neles. A postura, a meia-ponta já elegante, a leveza dos movimentos e o sorriso no rosto transformaram aqueles dois minutos de aparição num espetáculo completo, para o meu deleite.
E lembrei, então, da prioridade que elegi há uns dois meses, no meio de um show do Arnaldo Antunes com o Scandurra. Ela vai voltar, em breve, ao lugar que lhe é devido - posto que, ainda não sendo mãe, quero e preciso projetar meus sonhos em mim.


(Coisinha da direita. Linda!)

sábado, 11 de dezembro de 2010

Verdade inventada

Às vezes a vida é uma piada. De mau gosto. Que a gente mesmo inventa. E insiste em contar; e recontar. E insiste em fazê-la acontecer. E quebrar a cara. Os olhos, o corpo, a vergonha. Porque dói. Dói quando não funciona. Quem resiste aos apelos de uma mulher? Dói quando há quem se oponha. Aquele alguém, justo aquele, que resiste com a fragilidade de uma teia - impenetrável, porém.

Insistir, resistir.
E pra quê insistir na piada?
Pra quê, mais uma vez?
Mais uma.
E outra vez não funciona.
E resto eu, como insensata. Tão responsável por mim e tão facilmente desmascarada; tão rapidamente entregue a verdades que construí, após umas seis (?) doses de whisky.

Queima. O peito. Queimam os olhos. A cabeça, nessa loucura inventada.
E sabe o que mais me enraivece?
Saber que não para por aqui.

Dói.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Festival internacional leva cinema brasileiro a Barcelona

Posto uma matéria que fiz - mas que não foi publicada (eu acho que não!) - sobre um festival de cinema brasileiro em Barcelona, em novembro do ano passado (2009).
Perdoem-me a temporalidade da matéria. Totalmente fora de tempo.
Mas, como a correria aqui está grande e me obriga a ignorar os meus dedinhos ansiosos por escrever aquilo que a minha cabeça não pára de pensar, entrego a vocês o texto velhinho, pois me parece um pecado desperdiçar linhas já escritas.
PS: Destaque para a segunda parte, mais interessante do que o serviço informativo da primeira.

Festival internacional leva cinema brasileiro a Barcelona

Vinte exibições de dez longas-metragens brasileiros, inéditos na Espanha, durante uma semana. Esse é o conteúdo do 4º Cine Fest Brasil - Barcelona, iniciado na última sexta-feira (11) com a exibição do documentário “O Homem que Engarrafava Nuvens” (2008), de Lírio Ferreira, e do filme “Última Parada 174” (2008), de Bruno Barreto. O festival, que tem lugar no Cine Verdi Park, bem no centro boêmio da cidade espanhola, segue até a próxima quinta-feira (17), contando com a presença de alguns diretores, atores e produtores, que participam de debates com o público após cada sessão.

A noite de abertura reuniu cerca de 400 espectadores – dos quais 65% eram espanhóis, representantes dos consulados brasileiros na Espanha, meios da imprensa local e a prometida presença do diretor Bruno Barreto. A escolha dos filmes foi feita pela produtora Inffinito, curadora do festival, que buscou trazer mostras recentes e inéditas da produção cinematográfica nacional. Na programação, o documentário “Fumando Espero” (2008); os dramas “Maré, Nossa História de Amor” (2008), “Verônica” (2008), “O Contador de Histórias” (2009), “Se Nada Mais der Certo” (2008) e “Romance” (2008); e as comédias “Divã” (2009) e “A Mulher Invisível” (2009).

O evento é a etapa final do Circuito Inffinito de Festivais, iniciado em abril com o Cine Fest Brasil - Canudos, na Bahia. Sob diversos nomes, o festival rodou o mundo ao longo deste ano, passando por Buenos Aires, Miami, Vancouver, Nova York, Londres, Roma e Madri. Nesta edição, a organização espera receber uma média de 600 pessoas por dia: “O nosso público vem crescendo a cada ano, mas os espanhóis continuam sendo a maioria”, afirmou Alessandra Alli, produtora do evento em Barcelona.

Silêncio na última parada

Muda. Assim ficou a platéia do Cine Verdi Park, em Barcelona, na noite da última sexta-feira (11), após a exibição de “Última Parada 174” (2008), filme que representou o Brasil na disputa pela indicação ao último Oscar. Após os segundos iniciais de silêncio, ainda à espera da primeira pergunta vinda da platéia, o diretor Bruno Barreto quebrou o gelo: “Uma amiga comentou que eu deveria tirar a música da última cena, pois o filme tinha que terminar mudo, como nós. Entendo que vocês estejam calados!”.

O filme é um “reconto ficcional”, como assinalou o diretor, da história de Sandro do Nascimento, um dos jovens sobreviventes da chacina da Candelária, que culminou no trágico e conhecido episódio do sequestro ao ônibus da linha 174, no Rio de Janeiro, em 2000: “A realidade do mundo está tão absurda, que necessitamos a ficção para digeri-la”.

Foto: Paula Prandini (reproduzida do http://globofilmes.globo.com/)

Para o público, onde os brasileiros eram minoria, as cenas fortes poderiam até soar familiares por conta da repercussão internacional de “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. Mas, dois meses depois da escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016, o longa expôs uma cidade destoante das belas imagens mostradas no vídeo promocional da Embratur – um dos principais patrocinadores do festival –, projetado no começo da sessão. “Quando falamos de Brasil, temos que saber de qual país nós falamos. São muitas realidades diferentes, juntas. O vídeo da Embratur não é mentira; também é realidade, assim como o filme”, respondeu Barreto à inquietação dos espectadores espanhóis.

Na opinião do cineasta, este contexto violento já vem passando por mudanças. “Para gravar ‘Cidade de Deus’, o Meirelles (Fernando) teve que negociar, pedir permissão ao tráfico. Em 2007, gravei ‘Última Parada 174’ na única favela que estava livre do controle dos traficantes. Hoje, cinco ou seis favelas do Rio, que são uns 11%, já estão ‘pacificadas’”, comentou, citando o trabalho de pacificação das favelas realizado pelo governo do Rio, o qual considerou “muito corajoso”. “Se eu fosse o governador, teria medo de sair de casa (risos). Mas isso mostra que a realidade está mudando e, com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, temos que mudá-la ainda mais”, concluiu.


Informações sobre o Circuito Inffinito de Festivais:

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Paz e Bem

Começo de ano é a mesma história: cada um com seus planos, "cadacár" com seus rituais.

É quando, pra maioria de nós, saem à luz alguns - ou muitos - sonhos novos.
E, independentemente da intensidade da fé de cada um, surge também algum grau de esperança em concretizar os novos objetivos antes do próximo reveillon ("Quem acredita sempre alcança!", né?!). Até os mais pessimistas, bem lá no fundo do seu poço, esperam que algo se "resolva" e melhore ao longo dos próximos doze meses.

Mas, pra muita gente - e é aí onde eu me incluo - algumas velhas metas apenas se disfarçam de novas. É que um dia elas realmente foram inéditas, mas... Entra ano, sai ano e elas continuam esperando sentadas para ser alcançadas. Aí, cabe aos atrasados, enrolados e desorganizados por vida (Luciana Buarque, presente!) colocar uma roupinha nova no velho desejo, enfeitá-lo um bocadinho e voltar a tentar ("Tente outra vez!", né?!).

Nas últimas viradas de ano, obedeci a rituais particulares e comecei esse ciclos duodecimais cheinha de desejos e disposição. Já vou adiantando que nem todas as mugangas funcionaram...:

- Em uma delas, tomei um banho de sal grosso com perfume. Juro, eu fiz isso mesmo. Emborquei a bacia na cabeça e passei a festa inteira salgada (mas cheirosa!). Até que foi um ano bom. Os olhos gordos podem até ter me olhado, mas não me alcançaram.

- Na seguinte, matei a vontade de romper o ano na praia de Ponta Verde, com direito a jantar, show de fogos, amigos, família, paixão, big festa e champagne à fole a noite toda. Sambão do Patusco ao raiar do sol e carinhos do "bebê" pra terminar um dia e começar o outro. Foi, de longe, o pior ano da minha vida inteira e completa da história mundial (vixe, sem chance pra comparações!)! Vai entender, né?! (se bem que parece que não pulei as sete ondas...).

- Enfim, o sofrimento havia sido tanto que, no reveillon seguinte, tudo o que eu MAIS queria era que aquele ano acabasse. Então, na hora da virada, concentrei todas (eu digo TODAS) as minhas energias num simples pensamento: "Acabou. 2008 acabou. E com ele, tudo de ruim ficou pra trás". Dei um abraço demorado e apertado no meu irmão - única companhia naquela noite gelada - e respirei fundo, com muita confiança no que tinha acabado de mentalizar.

Deu certo. Não... Deu MUITO certo. O último ano sim-ples-men-te fluiu. Fluiu. Assim de natural. Não tive nem tempo pra raciocinar se as coisas estavam indo bem ou não. Tudo acontecia e acontecia. Foi, sem sombra de dúvida, um ano maravilhoso.

DoismilInove terminou tão feliz - marcado por momentos alegres, trabalhos deliciosos e novos projetos paridos - que no último 31 de dezembro, apesar do simbolismo que a data tem pra mim, apenas deixei ela passar. Preparamos, sim, um super jantar seguido de farra, mas a festa foi tão animada e enérgica que, sem querer, só entrei no clima e puff... o ano virou. Acho que, no fundo, era o que eu queria mesmo: fluir de um ano pro outro levando tudo de bom que ele me trouxe. Priorizei, somente, passar uma noite super feliz, tomar todas e assegurar-me de falar com toda a família e com a melhor amiga por telefone.


[Tá, tá bom, confesso que também fiz algumas coisinhas do tipo blusa e esmalte vermelhos, calcinha branca com detalhe dourado (e sexy, porque não?), depilação em dia, unhas feitas e cabelo arrumadinho. Também, não custa nada me sentir bem, bonita e cheirosa na virada, né? Brindei com champagne e comi as doze uvas. Tá, também entoei o típico "Adeus aaano veeelho, feliz aaano nooovo!". Brega, eu sei! Enfim, dizem que devemos fazer nessa noite aquilo que queremos fazer o ano inteiro. Faltaram alguns detalhes, mas também não preciso levar todas as superstições tão a sério, né, gente?! Porque se for assim mesmo, tô fu****!!!!!! Ou não!!! Whatever...]
Claro que várias daquelas metas inéditas do começo de 2009... continuaram sendo inéditas! Hahah! Então, passados alguns dias, me incomodava o sentimento de ter começado 2010 sem um ritual mais concreto e sem haver firmado contrato algum com o lado mais irresponsável da minha pessoa. Apelei, portanto, às internacionalmente conhecidas listas!
[Sou uma pessoa de listas; quem convive comigo bem sabe. Faço lista pra tudo. Lista de compras, lista de tarefas diárias, lista de dinheiro gasto, etc. etc. etc. Não sei viver sem agenda. O que seria de mim sem uma agenda? Dá "coisinha" só de imaginar! Mas deixemos esse tema de lado, que daria pano pra manga de outro post]
Minha lista de metas pra 2010 é longa, porém humilde. Deus, o universo e as pessoas foram muito bons pra mim nos últimos meses, o que torna inadmissível querer grandes coisas. Não tenho tantas ambições, senão apenas concluir os trabalhos iniciados, seguir construindo minha profissão e sair daqui com a sensação de inteireza.
As metas são bem pessoais, no sentido mais literal do termo. Tratam-se de 32 coisinhas simples: umas que me fazem/farão bem e outras que incomodam a mim (e aos demais) e que eu gostaria muito de mudar.


Pensei em postar a lista. Sobe, desce, vai, vem, relê, revisa, posta, num posta... Mas, graças a meu PadinPadinhoCiço, retomei as minhas faculdades mentais a tempo e vi que não tinha necessidade de passar tanta vergonha expondo os meus mais sórdidos defeitinhos, né? Coisas do tipo "Não ir dormir sem escovar os dentes" e "Não esquecer calcinhas no banheiro" podem ser segredinhos só meus, né? (e dos meus flatmates! rsrs).
Ser pontual, ouvir mais e falar menos, demonstrar gratidão, testar novas receitas, cuidar da alimentação e da saúde, praticar a "Paz de Buda" (em uma re-significação pessoal, leia-se: tolerância e desapego), além de muitos itens mais, preencheram toda uma página.


Mais que nada, quero melhorar pra mim. Todos os ingredientes da minha lista convergem pra um objetivo: manter o equilíbrio emocional, cuidar da saúde espiritual, priorizando a minha paz e me respeitando. Quero chegar ao fim desse ano sendo mais honesta comigo. E com serenidade.
E vocês, o que esperam?


Bom ano a todos!
Fé, luz e força!!!



"Paz e Bem", na parede do meu cantinho...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

De vontades e saudades...

Vazio... Oco...
Um buraco negro no lugar dos pulmões.
Um, dois, três, quatro... Até cabe mais ar na respiração profunda!


Quando a saudade tem nome, fica tudo explicadinho.
Mas, e quando não tem?
Só dá aquele friozinho, aquela vontade de aconchego e o coração fica apertadinho...
Mas a gente olha pra os lados, olha pra dentro, e continua sem razão pra esta estranha "nostalgia".


Sensação esquisita!
Acontece sempre que visitas queridas vão embora.
Levam um pedaço da gente e a gente fica metade vazio.


Aí, dá aquela vontade de estar lá, mas sem querer sair daqui.
Dá uma coisa que parece "saudade" daquilo que não estou vivendo lá, e que não se repetirá...
É uma pena que as escolhas nunca contemplem todos os nossos desejos...
Se contemplassem, não se chamariam escolhas.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Fico.

30/10/2009. Esta deveria ser a data precisa deste post. Mas, como neste último ano consegui ratificar ainda mais os meus rótulos de "atrasada" e "sem tempo" (coisa que parecia impossível!), a minha declaração vem com alguns meses de "delay" e muitas cobranças de "sinais de fumaça pelo menos pra dizer que está viva" dos meus amigos:

Se é para o bem de todos [os meus projetos] e felicidade geral da nação [do meu coração], digam ao povo que FICO!

Sim. Estou ficando, pelo menos.

Contrariando todos os meus planos (o quê são os planos antes de serem fatos?), rasguei o velho roteiro e decidi que não era hora de voltar. O coração pedia pra viver tudo o que está ao seu alcance. A cabeça raciocinava que seria melhor voltar com o perfil profissional mais trabalhado e qualificado. Os sentidos queriam se manifestar maniacamente, diante da sensação de haver se mexido pouco nos dois anos anteriores. A energia acumulada queria se jogar em todas as idéias que vinham fulminando ao longo dos supostos últimos meses que me restavam de estadia no Velho Mundo.

Tanta vontade concentrada atraiu o destino pra os novos caminhos...
Três horas depois de enviar alguns currículos por internet, o telefone toca. Do outro lado, aquele que viria a ser o meu futuro (e atual) chefe. No outro dia, comecei no trabalho, após quase três anos sem trabalhar. Com o passar dos dias, pude sentir o mínimo de segurança necessário pra concretizar os planos de ficar. Calma, não pensemos que os pensamentos positivos e o botão "FÉ" ativado na potência máxima me fizeram ser contratada por um jornal espanhol! Hehehe! Mas, se eu disser que encontrei o que realmente estava buscando, ninguém acreditará. Sim, eu queria mesmo trabalhar em um bar. Queria "desopilar", como diria um amigo: não pensar em estudos ou em carreira profissional. Queria algo que me desse o pão de cada dia, que sacudisse minha vida social fazendo-me conhecer mais gente e que me fizesse pensar em outras coisas - ou não pensar muito, quando se trata de servir cervejas ou "lapadas" de tequila. Pensando melhor, os pensamentos positivos e a fé em alta trouxeram o que eu estava procurando e desejando tanto.

Foi aí que a nova trabalhadora brasileira, que trabalha igual burro e não ganha dinheiro (Salve Seu Jorge! rsrs), re-significou o seu dia 30 de outubro de 2009. Em março, em mais uma despedida, os abraços apertados nos grandes e melhores amigos e na família amada eram acompanhados da frase "Em outubro estou aqui de vez! Preparem-se!". Nesse esperado dia 30, eu estaria embarcando para a fase III da vida, de volta à Terra Brasilis. Fazia questão de comemorar o meu aniversário ali, após três anos fora. Ao mesmo tempo, algo de pressentimento já começava a manifestar-se (nesse ano, um lado "bruxinha" se aguçou em minha pessoa...). Enquanto dizia que estaria de volta em poucos meses, despedia-me emocionada com a justificativa de que não sabia quando voltaria a ver-lhes... Contraditório, não?! Mandaram-me, inclusive, virar essa boca pra lá! Mas não, eu não achava que partiria dessa pra outra vida... Simplesmente eu não podia explicar a sensação de que algo poderia mudar. Uma semana após chegar de volta à Barcelona, entendi tudo. O que eu menos queria era regressar em sete meses.

E eis que aqui estou. O 30 de outubro virou a data da minha "Abolição da Escravatura" (leia-se: fim do contrato com a minha bolsa de estudos, que há muito já havia danificado meu sistema nervoso), a comemoração de um mês do meu grito de "Independência ou morte!" (depois de ter vivido em família durante toda a minha estância fora do país, finalmente me mudei e comecei a morar "só") e o "Dia do Fico" (ou o "dia da volta daquela que não foi!").
Muita coisa vem acontecendo e muita água ainda rolará. As perspectivas pra 2010 são muitas: muito trabalho, muita determinação, muita força e muito guaraná em pó pra aguentar o rojão! O ano que acaba de acabar me presenteou maravilhosas surpresas e foi berço de muitos projetos, que precisam ser concretizados e finalizados no ano que apenas está começando.

Menos dormir e mais agir. É tudo o que eu quero pra esse novo ano que é o fim de um ciclo. Sim, espero que seja o fim, afinal, não me converti num pedacinho de pedra: a saudade aumenta proporcionalmente ao passar dos dias e já começo a sonhar até com o cheiro de Brasil. Deste ano não passa!

Mas, por enquanto, fico!


O mais perto que cheguei da terrinha, por enquanto! (Padrão dos Descobrimentos - Lisboa, Portugal)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Saudade de quem já não está.

Foto: Ivson Luna

Hoje senti saudade da casa da Vó. Da galinha guisada, do Tang de laranja e da Cream Cracker com manteiga. Da bunda na cadeira de balanço e os desenhos animados a quatro palmos da cara. “Luciana, já falei pra assistir a televisão de longe. Faz mal a vista!”. Faz mal mesmo, Painho. Agora eu sei! Estava apenas sentando na cadeira da Dona Luzenita, já perfeitamente posicionada na frente da TV, só deixando espaço pras perninhas magricelas.
Saudade das papoulas vermelhas. Das mangas no quintal. E siriguelas. De imaginar que aquilo tudo era um bosque encantado e o paredão de água era uma cachoeira. De fuçar o sótão da empregada. “Futucar” o quarto da Tia Dio, calçar todos os seus sapatos dos anos 60 e me sentir uma chic senhora no grande banheiro em tons de azul e branco. Dos banhos na banheira de frente pro espelhão, louca para usar os sais. Do telefone vermelho, mais que “estiloso”.

Do chão frio. De ser top model de frente pra parede espelhada da sala de piso parquet. De não saber tocar nada naquele piano (mas ter tentado aprender "Parabéns pra você" e o tema do Danoninho... "Me dá, me dá, me dá...") e passar horas olhando a coleção de bonecas nas cristaleiras – que, mais tarde, virariam personagem de matéria minha. De querer ter um bar igual aquele, quando eu tivesse minha própria casa.

Do meu retrato com nove meses de vida, no colo da amada prima Lu, então com seus 19 anos. De brincar com as delicadas ampulhetas, morrendo de medo de quebrá-las. Ainda não sabia que a velocidade do tempo podia acelerar assim. Da minha coleção de gibis da Turma da Mônica, endereçada a casa da Vó, já que eu não morava – me escondia quase fora da cidade. Do meu irmão pequeno, da minha prima; os companheiros de aventuras.
Do Tio Wagner entrando com o pão quentinho a cada fim de tarde...

Das expedições por cada centímetro quadrado daquela casa encantada. Conheço cada detalhe. Lembro de cada cheiro. Saudade dos dias de chuva. De só ficar vendo desenhos animados, com o olor de terra molhada subindo pela janela ao lado. As horas eram mais longas... Saudade dos jantares de Ano Novo. Que saudade...! Do entra e sai de parentes na casa da matriarca. De sonhar em ter um namorado pra sentar comigo no banquinho de mármore branco da varanda da frente, construído – segundo ela – com este fim...

Hoje, só as lembranças e o pouco que sobrou da casa. As ruínas do lindo império que ela construiu, sozinha. Saudade dela.
Que esteja em paz, Vó; você merece.

domingo, 9 de agosto de 2009

Para os meus...

Pra quem entende esses sentimentos, por haver vivido esse processo: compartilho.
Pra quem entende esse processo, por haver acompanhado - mesmo de longe: declaro...


Descobrir o mundo. Viajar. Viver. “Cidadanizar-se”. Ser. Estranhar. Adaptar. Expandir. De dentro para fora. De fora, pra dentro.

Ganhar. Compartilhar. Perder. Rasgar-se. Chegar ao limite. Ao seu limite. Desesperar-se. Sentir que morre. Superar o limite – surpreender-se consigo. Renascer. E tornar a ganhar.

Conhecer.

Conhecer. Gostos. Hábitos. Gente. Gentes. Gente pequena. Gente grande. Gente admirável, gente desprezível. Almas. Conhecer almas. Corações. Mentes. Cheiros, cores, sons... Ares. Lugares. Conhecer gostos. E desgostos.

Crescer. Aprender. Sofrer, mas crescer. Renunciar. Entender o time, pra tirar o time de campo. Desligar-se. Faxina, abrindo estradas para o novo. Pra sair do escuro à luz. Errar e acertar. Errar mais, bem mais. Descobrir a essência dos acertos. É a sua essência. A raiz que não morre. Está sempre ali, bem ali. Perceber as mudanças. E gostar do que vê transformado. Transformação. Conservação. Amar o que se mantém. Equilíbrio.

Ares. Novos ventos. Velhos ares. O que era novo ar, agora já é habitat.

... Viver sem os “nossos”, nunca. Passar toda a vida longe deles, não. Jamais. Não teria sentido. Eles dão sentido. Eles são o sentido. O meu sentido. Tirar férias deles, sim. Abrir espaço pra mais gente. Para o novo. Coração grande. Espaço infinito. Coração quer o mundo todo. Coração: cabe todo mundo.

Mas eles são raiz. Alimento. Necessidade. Minha fonte. Que nunca seca.

domingo, 28 de junho de 2009

Aqui jaz um diploma...

Por razão de força maior, faço uma pausa nas crônicas da “dolce vita italiana”, pra comentar a minha indignação com a amarga vida dos jornalistas brasileiros:

STF derruba a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista

Alguém me dá um copo d’água e me explica direito essa história, POR FAVOR?!
Cheguei em casa na madrugada daquela quinta-feira, 18 de junho, depois de dançar horrores em um samba brasileiro (na tentativa de conservar a paz e alegria encontradas no último fim de semana) e, naquela checada rápida na internet antes de dormir, leio essa bomba. O choque (eu não esperava que o julgamento resultasse nessa decisão), somado às duas cervejas que eu tinha tomado, fizeram meus olhos encherem de lágrimas e minha pele toda arrepiar. Dormi pra não pensar.

Inevitavelmente, um dos primeiros pensamentos ao acordar foi o mesmo. Oito votos a um. Oito a um!!! Indignação, revolta, tristeza e vazio; não houve paz e alegria que resistissem a esse pancada. As lágrimas e arrepios voltaram (percebi que não havia sido efeito da cerveja). Sabe a sensação de ter trabalhado pra conseguir construir sua casinha com esforço e, de repente, ver o Estado desapropriá-la com uma justificativa ridícula? Essa foi minha melhor tentativa de descrever o sentimento, mas confesso que é algo inexprimível.

Antes de continuar, explico que pior do que a decisão em si (que se trata de um tema delicado) foram as justificativas para tal. E saber que o que foi dito pelos ministros será tomado como referência praticamente “legal” em qualquer posterior discussão sobre o tema!
Não consigo processar os comentários dos magníficos ministros (magníficos pras mães deles!!! E não me peçam respeito: olha a liberdade de expressão!!!). Chefes de cozinha, costureiros, modistas... A questão não é somente a da comparação esdrúxula de Gilmar Mendes, presidente do STF (ele deveria ter vergonha de abrir a boca pra dizer certos absurdos): “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área” (http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1198310-5598,00-STF+DERRUBA+EXIGENCIA+DE+DIPLOMA+PARA+EXERCICIO+DA+PROFISSAO+DE+JORNALISTA.html) e (http://www.youtube.com/watch?v=mhXSjrqh9Ag&feature=related). Não tiro o mérito de nenhuma dessas ocupações, jamais; quem bem me conhece sabe disso. Olho para o simples fato de essas profissões não estarem reguladas! Se não há regulação, não dá pra haver cobrança de títulos. Mas no caso do jornalismo... Trata-se de um tremendo retrocesso.

Foram décadas de muita luta e lentos avanços, a duras penas, para que OITO cabeças “SUPER PENSANTES” da instância MÁXIMA da JUSTIÇA brasileira se coloquem do lado da iniciativa privada e contra a cidadania (o que não é nenhuma novidade...), determinando simplesmente que escrever é um dom!!! Qualquer um pode fazer isso! Liberdade de expressão! (Claro, assim como urinar e defecar são atividades naturais; qualquer pessoa as executa, inclusive os “excelentíssimos”...).

Dá raiva só de lembrar as argumentações. Qualquer pessoa em sã consciência e com um pouco de noção da realidade pode rapidamente notar a debilidade de tais argumentos. Não obstante, não posso deixar de comentar algumas “valorações” dos “experts” do SUPREMO:

1. Comunicação não é ciência. Uma salva de palmas! Desmereceram décadas de estudo e todo um universo de pesquisadores e investigações na área (inclusive, o que é que eu tô fazendo “perdendo” três ou quatro anos da vida num doutorado? Devo ter batido a cabeça mesmo...). Ah, e pra não falar que tudo começou com Aristóteles! “Ãhn? quê? Quem é esse?”, devem se perguntar os ministros, especialistas em direito, que de comunicação não entendem NADA! Ah, parece que sociologia, antropologia e outras “ias” são só um hobby de pensadores que não tem coisas mais sérias pra fazer.

2. Machado de Assis não tinha diploma. Haveríamos sido privados dos seus brilhantes textos se naquela época o diploma fosse obrigatório, segundo o gênio Gilmar Mendes, presidente do Supremo. Mendes, preste atenção: o primeiro curso de jornalismo do Brasil surgiu quase 40 anos DEPOIS da MORTE de Machado de Assis!!! Ó, céus, que comentário, que argumentos... Um chazinho de camomila, por favor...!

3. Argumentam que tal qual a extinta Lei de Imprensa, a exigência do diploma era um péssimo resquício da ditadura militar. Dirijo minha pergunta aos ministros e à ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão – privadas, diga-se de passagem): se é assim, então porque as atividades de radiodifusão continuam hoje a serem reguladas pelo defasado Código Brasileiro de Telecomunicações, datado de 1962, cuja promulgação foi claramente induzida pelos militares que, dois anos depois, assumiram o governo do país? Isso não se trata de um resquício também? Porque tal código segue vigente (sem atualizações) apenas para as rádios e televisões abertas e gratuitas, visto que em 1997 foi promulgada uma nova lei para as telecomunicações?
Quanta pergunta complicada, não???

4. "O que seria da internet, dos blogs e de toda essa evolução nas tecnologias da informação e na liberdade de expressão se todo mundo tivesse que ter diploma pra escrever?". Ai, meu Deus do céu... Santa ignorância, Sra. Advogada Taís Gasparian! Em que mundo você vive, minha filha?! (PARECE que a ministra Ellen Gracie pactuou da opinião. Se assim for: ministra, o loiro do seu cabelo é tintaaa! Liberdade de expressão II!) Taís, já ouviu falar de Web 2.0? Desculpe, acho que estou falando grego, né?! Bom, vamos desenhar pra ver se você entende melhor: na sua adolescência, você precisava de diploma pra escrever o seu querido diário? Não, né?! E você podia mostrá-lo pra quem você quisesse, não era? Mas, era o seu querido diário que tinha nas mãos a força de difundir ou não – e da maneira que você bem quisesse – os acontecimentos de relevância local e mundial para TODA a sociedade, sendo considerado e socialmente legitimado como um “quarto poder”? Acho que não, NÉ? Bom, com essa decisão, pode ser que agora a coisa ande pra esse lado... De todo o coração, espero que não. Não é à toa que “Fé” está tatuada em mim (eu devia estar pressentindo que ainda iria precisar muito dela...).

Enquanto em outros países, a exemplo da Espanha, cursos de graduação e pós-graduação em jornalismo se multiplicam, inúmeros colégios de jornalistas buscam um consenso sobre o exercício diplomado da profissão (http://periodistasdegalicia.es/doc/colegiosperiodistasweb.pdf) e órgãos de fiscalização (http://www.cac.cat/) buscam controlar a qualidade da informação, o Brasil anda de ré e as empresas de comunicação batem palminhas de felicidade. A justiça alisa com uma mão, pra depois bater com a outra: derrubam a ditatorial Lei da Imprensa e, semanas depois, derrubam também o diploma. Se o jornalismo já enfrentava tantos problemas de qualidade, ética e corrupção, sinto que agora é que a coisa vai ficar preta e que, no final, sempre vai dar tudo em pizza e samba, como de costume.

Bem que meu pai já dizia que jornalismo é uma profissão de risco. É, mainha, comece a se contentar com a minha antiga idéia (tô ficando boa nesse negócio de pressentimento): se eu não der certo como jornalista, abrirei meu restaurante numa praiazinha paradisíaca do nordeste brasileiro, com o dom culinário que herdei de você.

Avante, companheiros... Agora é que a luta começou... Quem falou que seria fácil?
(Pra esquecer dos problemas bem ao estilo verde-amarelo de sempre, vou-me embora ver o jogo do Brasil num pagodinho de mesa...)


Muito bom o ponto de vista: http://colunas.epoca.globo.com/paulomoreiraleite/2009/06/17/cozinheiro/

Nota da FENAJ: http://www.fenaj.org.br/diploma/interesse.htm

Posição do Deputado (e jornalista) Paulo Pimenta: http://www.youtube.com/watch?v=eCqktndzHUw&eurl=http%3A%2F%2Fwww%2Eorkut%2Ecom%2FFavoriteVideos%2Easpx%3Fuid%3D11790518328074640330&feature=player_embedded

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Toscana - Parte 2

Destinação: Castiglion Fiorentino
Segunda parada: Arezzo
Terceira parada: Cortona
Dia 1: 05 de junho de 2009, sexta-feira à noite!

O primeiro programinha proposto por Fabi foi um “jantarzinho” em um café super arrumado de Arezzo, numa rua onde dois de cada três estabelecimentos haviam servido de cenário pra o filme “La vita è bella”. Ai, que delícia!

No ambiente meio chiquê do Caffè dei Costanti (cheio de lustres luxuosos), pagamos 5 euros por um drinque e tivemos direito a um extenso buffet de canapés, massas, saladas, risotos, mini-sanduíches... Era a nossa primeira hora com os pés na Toscana e já estávamos nos entregando aos prazeres da gula...! O drinque – que se chamava Spritz – era a nossa cara: super laranja e refrescante, transmitia impressões de alegria e festa.

Nem o furdunço de um comício das eleições européias tirou o charme do momento. Na verdade, toda aquela movimentação de gente, uma orquestra tocando ao ar livre na porta da igreja e as ruas de pedra cobrindo-se de uma luz amarelada com a chegada da noite injetaram ainda mais ânimo nas brasileiras aqui. Mal chegara e eu já estava desfrutando muito. Quando digo muito, é muito mesmo. Um sorriso se plantou na minha cara e só desapareceu dias depois, quando voltei à casa. Orgasmos múltiplos de prazer por estar ali.

A primeira noite já foi maravilhosa. Fabi começou a mostrar-nos os inúmeros bares de vinhos. Sabe pequenos lugares onde a gente estaria tomando uns choppinhos, se aquilo ali fosse o Brasil? Lá, era tudo vinho! Entramos no Divino (nome super sugestivo, não?), que é uma Prosciutteria-Wine-Cocktail Bar, como eles se autodenominam. Um ovo de lugar mega-agradável e cool. Na verdade, nem precisava entrar: todo mundo ficava em pé na porta do bar, com suas grandes taças de vinho, conversando e sorrindo muito. Dentro, uma decoração super legal: muitas garrafas no balcão e nas prateleiras, móveis modernos sob paredes de pedra e bancos coloridos de acrílico que mais pareciam grandes vasos de flores tampados (eu e Élida gastamos minutos discutindo se eram vasos ou tamboretes, até que consegui convencê-la de que eram bancos, pois estavam em volta de mesas e havia gente sentada neles).

Dividimos uma taça do tinto Rosso Romeu di Montepulciano (já gostei pelo nome! E mais ainda pelo sabor). Não! Isso não foi um ato de pobreza! Compartimos a taça porque Fabi já não podia mais beber; ela teria que dirigir e a polícia ali é PH***, com PH mesmo! Eles não só te multam por estar com uma gota de álcool no sangue, como também apreendem o seu carro para SEMPRE e, ouçam bem, LEILOAM-no! Isso mesmo: leiloam o SEU carro. Fiquei passada e engomada. Além do mais, era a minha primeira noite e eu não queria chegar embriagada e vomitando na frente dos pais de Fabi, nem muito menos encarar uma ressaca naquele sábado promissor.

Na porta da Prosciutteria-Wine-Cocktail Bar começou a sessão de apresentações, que não acabou até a hora de pegarmos o trem de volta ao aeroporto. Cidade pequena é assim, seja aqui, no Brasil ou na China: TODO mundo se conhece.
Podem até não se falar, mas sabem a ficha quase completa de quase todo mundo. Começamos por dois italianos colegas de Fabi – não me exijam todos os nomes, porque essa seria uma missão impossível. Além de uns condutores de trem, Alex (acho que era esse o nome de um dos colegas) foi um dos primeiros caras que abriu um sorrisão de orelha a orelha quando ouviu a palavra mágica: “brasileiras”. O moço (que já não era tão moço assim) danou-se a falar o português que aprendeu nas suas três férias no nordeste do Brasil. E até que falava bem, viu?!

Degustamos o vinho no meio da ruazinha, apreciando o clima do momento (eu estava quase em êxtase com o ambiente) e tomamos o caminho da roça. Na casa de Fabi, refizemos o make-up rapidamente e lá estávamos nós, buscando Alice – uma das suas melhores amigas, super gente boa, que parecia haver saltado de algum desenho animado ou cartoon meigo e divertido – para nos dirigirmos a uma festa em Cortona, cidade vizinha a Castiglion.

Do estacionamento, vimos que a festa estava um fracasso e, então, resolvemos dar uma volta pela cidade. Deu pra ver que Cortona é realmente muito linda, mas a ventania fria que quase nos levava voando deve ter espantado as pessoas: não havia quase ninguém nos bares, apesar de ser uma noite de sexta-feira. Voltamos pra Castiglion, onde o Velvet Garden (um bar ao ar livre) nos esperava...

Como o texto está bem extenso e como eu já estou atrasada (pra variar), deixo para apresentar-lhes o Velvet na próxima postagem. Não sabia ele (e nós tampouco) que o lugar abrigaria “las borracheras nuestras de cada día” (todas as nossas canas, em um bom português!). O Velvet marca o começo da etapa “Castiglion Fiorentino Forever”!!!

Baci per tutti! Arrivederci!

terça-feira, 9 de junho de 2009

Toscana: o retorno (Parte 1)

Destinação: Castiglion Fiorentino.
Primeira parada: Perugia – região Toscana – Itália
Dia 1: 05 de junho de 2009

A viagem, planejada há uns dois meses, já começou bem. Um dos 28 e-mails que Fabiana, minha amiga-anfitriã italiana em Castiglion Fiorentino, havia-me mandado nas últimas 48 horas me rendeu muitas risadas. Fabi contou que Élida (amiga brasileira que me acompanhou nessa viagem) e eu éramos “a atração da semana”! Todos os seus familiares e amigos estavam “super ansiosos e loucos pela nossa chegada”; afinal, éramos as brasileiras. É que desde que voltou das suas férias no nordeste brasileiro – com duração de apenas 15 dias, mas que englobaram o carnaval –, Fabiana se considera outra mulher. E todos os que convivem com ela também pensam assim. Dizem por aí que ela irradia uma luz e alegria antes nunca vistas. E ela diz que não quer, jamais, perder o “axé” que descobriu nos seus dias de sonho no país tropical. Luta árdua e diariamente por isso. Ela acha mesmo que tem um pezinho na nossa senzala. E eu concordo, plenamente. Portanto, não é de se estranhar que nós, as brasileiras, sejamos a atração da semana. Tô até achando que a festa medieval da cidade já nem é tão importante assim... rsrs.

Eu venho sentindo, há dias, uma empolgação um tanto quanto surpreendente, posto que esta já seja a terceira vez que visito Castiglion, sob a recepção de Fabi e sua família. Mas, dessa vez, tem algo diferente.

A ida está sendo bem longa. Mais de uma hora de ônibus até o aeroporto onde pegaremos nosso vôo low-cost. Na fila de espera pra o embarque, um rapaz me chamou a atenção pelo seu, digamos, porte físico. Cutuquei Élida pra começarmos a valoração do produto. “Moreno alto, bonito e sensual”, cabelo legal, etcétera e tal. Beleza. Uma olhada 180° de cima pra baixo e... Havaianas no pé. Mas será possível? Noventa por cento de chance de ser brasileiro. Bastou abrir a boca e o castelhano com sotaque verde-amarelo o denunciou. Como brasileiro sempre se junta, não deu outra: sentamos perto, o que ajudou o tempo do vôo a passar mais rápido.

Mais uma hora de viagem, tentando nos convencer de que o piloto era, sim, profissional. Dadas as semelhanças com uma voltinha numa montanha russa, minha amiga apostou todo o seu dinheiro em que o cara ainda não tinha sequer “voado” na última versão do Flight Simulator. A verdade é que subir em um avião exatamente uma semana depois de uma grande tragédia aérea não é lá tão confortável; ainda mais quando se trata da companhia mais baixo-custo do mercado europeu. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém. O Pai Nosso e a Ave Maria de costume e vamos lá. Avanti!

Perugia, cidade aonde aterrissou o nosso vôo super-mega-hiper-extra low-cost, é uma linda comuna da região da Umbria, na Itália. O aeroporto de Perugia é, sem dúvidas, o menor que já conheci. A esteira de bagagem tem uns 3 metros de comprimento, no máximo. Pra quem acha a do aeroporto de Maceió pequena... Essa parece que é de brinquedo! (Faltou uma foto... A polícia aeroportuária me intimidou...).

Do lado de fora, o asfalto quente fazia subir um calor já familiar, debaixo do brilhante sol do meio da tarde. Foi a primeira sensação de que eu estava voltando à TOSCANA! Quando esperávamos a partida do micro-ônibus-sauna que nos levaria à estação de trem no centro de Perugia, vimos surgir do lado de fora o tal moreno alto tomando um sorvete de casquinha de dar água na boca. “Filho da mãe... A gente aqui desidratando nessa ‘besta’ e ele se lambuzando de sorvete... ITALIANO!”. Bastou um sinalzinho do rapaz nos convidando pra dividir o seu gelato, e lá estava eu tentando arranhar a minha primeira frase na língua italiana, em terras italianas, pra o motorista do ônibus: “Aspetto fueri!” (que significa: “Espero fora!”. É claro que na hora eu troquei alguma vogal, mas o sorriso do motorista ao me ver articular aquela enorme frase me fez pular de alegria como se tivesse feito um gol em final de campeonato – se eu jogasse bola, claro). O sorvete era delicioso. Frutas do bosque e nozes. Huuummm. O tempinho de conversa serviu pra tirarmos mais alguma onda, trocarmos telefones (os três, vale ressaltar) e convidarmos o rapaz pra festa medieval de Castiglion. Educado (pra não dizer interessado), o moço ofereceu carona no carro do amigo que viria buscar-lhe. Mas, como tínhamos pressa, voltamos ao ônibus.

No caminho até a estação de trem, alguma estradinha de barro me suspendeu da Terra por uns instantes. Aquela paisagem harmoniosa em tons de verde e amarelo – composta de campos, estradas e casas ora rústicas, ora românticas, quando não eram as duas coisas juntas – transmitiu-me uma deliciosa sensação de reconhecimento. Lembrei-me imediatamente da minha última vez na Toscana, há uns nove meses, no verão europeu do ano passado. Senti-me no carro que alugamos, eu e mais três, percorrendo muitas estradas semelhantes àquela. Não, não era saudade, nostalgia; nada disso. Era reconhecimento. Parecido com o que a gente sente quando retorna pra nossa cidade, após muito tempo fora. Era o coração inundado de felicidade em estar de volta àquele lugar.

Outra hora no trem de Perugia a Arezzo, onde encontraríamos Fabiana para jantar e tomar um drink antes de seguirmos pra casa dela, em Castiglion Fiorentino. As quase oito horas de viagem, ao final, não resultaram tão cansativas. Sempre é bom conversar sobre a vida e relembrar histórias e amigos, principalmente com a paisagem toscana pela janela. Aproveitei pra revisar as duas pequenas páginas com palavras e expressões básicas em italiano: era o meu guia de “sobrevivência” não por necessidade, senão por opção própria. Dessa vez eu queria dar o pontapé inicial nessa língua apaixonante.

Na estação de Arezzo, avisto Fabi correndo em nossa direção com um sorrisão no rosto e uma folha de papel verde na mão, onde se lia um carinhoso trocadilho do clássico hino do carnaval baiano: “Bem vinda a Toscana... coração da Itália...”!

Ao som de muito axé baiano no carro de Fabi, começam as peripécias e deslumbres!
Grazie, bella!


quinta-feira, 21 de maio de 2009

Espaço vazio, espaço habitável...

Ouvi dizer que o poeta alemão Goethe disse, certa vez, que “ler é a arte de desatar nós cegos”.
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Estava lendo um post no blog de uma grande amiga, também jornalista, a Mylle. Ela falava sobre o tempo. Mais especificamente, sobre a importância de usar o tempo presente como a oportunidade para resolver coisas do passado - que ainda nos incomodam no hoje – e como lugar para realizações plenas, que não dêem espaço para arrependimentos futuros. Comparto, racionalmente, da opinião. Inclusive concordo sobre a importância de não tentar apagar partes do passado; afinal, elas são a nossa história. Indispensáveis na nossa construção e autoconhecimento (ou reconhecimento... reconstrução...).
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Mas confesso que, apesar de apregoar esse pensamento (como ótima conselheira que sou), me pego querendo enforcar o passado que, ao passar, deixou tanto sofrimento, dor e vazio. Na real, é tão difícil engolir (e digerir) a verdade que diz que "pra certas coisas, só o tempo"... Tempo duro, doído, torturante. Malvado, até. Tempo brincalhão: num dia amanhecemos curados; no outro, ferrados... Num dia estamos super fortes; em outros, impressionantemente vulneráveis. Seria tão mais fácil se tudo se evaporasse feito éter, deixando o peito respirar... Deixando a cabeça livre pra entrada de outros pensamentos (talvez mais produtivos. Talvez não...).
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É nessa hora que a maior vontade do ser humano é a de apagar o capítulo que já foi ao ar e que acabou sendo cortado na metade pela claquete impiedosa de um dos diretores. E nós, co-autores, não sabemos onde guardar as tantas páginas já escritas que adiantavam as próximas temporadas. Afinal, pra nós, o enredo ainda estava na metade. Pra nós, no fundo, o seriado ainda não terminou. Não temos nem idéia de onde colocar as tantas idéias mirabolantes que tínhamos inventado pra o desenrolar da trama daqueles personagens... Onde, onde? Ainda não sei ao certo... Se o soubesse, seria tão mais fácil.
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Quantas vezes pedi, implorei, rezei pra que o ansiado dia chegasse. O dia de sentir que já foi. Que já está tudo bem, mesmo. “Tudo bem resolvido”. Ôh, sentimento mais desejado esse da “boa resolução” interna. Mas quanto mais peço, mais sinto que pra esse meio-tempo ainda não inventaram remédio. No meio-tempo, não há outra a não ser... seguir. Cuidar da vida. O tempo cuida do resto; de tudo aquilo que põe esses reles mortais em posição de impotência.
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[Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma... A vida não pára... Eu finjo ter paciência... Um pouco mais de paciência... (Paciência, Lenini)]
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Goethe disse que “ler é a arte de desatar nós cegos”.
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Eu li no MSN de uma amiga uma frase interessante, desabafando que “o problema é que o vazio ocupa espaço DEMAIS”. De fato, o vazio pode ocupar muito espaço. Se a gente deixar, ele ocupa todo o espaço possível. Vai escorregando, entranhando–se... Mas, deixando a cargo do tempo apenas e somente o que diz respeito a ele, coloco de volta o destino em minhas mãos e converto, diariamente, esse espaço que poderia ser vazio num “espaço para o futuro desconhecido encher minha vida com surpresas que ainda estão por vir” (Comer, rezar e amar, de Elizabeth Gilbert). E o faço com todo o prazer, íntegra e integralmente.

"Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar..." (Vilarejo, Marisa Monte)

É, Goethe, sua fama não é à toa (rsrs). A leitura faz crescer o nosso campo mental e nos ajuda a entender por onde os fios se enveredaram até formar esses nós de marinheiro. Tenho fé em, um dia, saber reconhecer alguns dos próximos nós, antes mesmo deles se emaranharem.
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Por enquanto, vou lendo e escrevendo, tentando desatar meu nós. Porque, convenhamos, nestes tempos de crises, Nossa Senhora Desatadora de Nós deve estar cheinha de trabalho! [De todo jeito, seu santinho tá lá na carteira e sua imagenzinha na bolsa! Só por precaução! Vai que ela abre uma fila prioritária pra pessoas com varizes... ;) ]

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Visca el Barça! (E vai rolar a festa...)

[Cabe explicar que isso aqui é uma visão super pessoal. Nada jornalística, mas tampouco é de uma turista que passou só quatro dias na cidade. São apenas as minhas impressões – se bem que elas vêm sendo formadas ao largo de longos dois anos e meio...]

Vivi Barcelona no dia em que o Barça ganhou um torneio. Eu estava aqui e isso é, no mínimo, impressionante. Incrível. Na verdade, faz mais ou menos um mês que a cidade vive momentos de loucura total a cada semana. A cada quatro ou sete dias, vejo uma Barcelona caótica. É que dos torneios que o time poderia participar nesse ano, parece que uns 80% estão acontecendo entre abril e maio. É jogo demais em pouco tempo. Coração demais, emoção demais, fanatismo demais; comemoração, exaltação e excessos demais. Tudo demais. Tá parecendo Copa do Mundo. Posso supor que a economia da cidade também esteja afetada por demais. Os torcedores gastam horrores em bandeirolas, adornos, fogos de artifício, “bombinhas” e cerveja – principalmente. Por sua vez, as lojas que comercializam artigos do clube devem experimentar uma subida nos lucros. Os bares, idem. O próprio Futebol Clube Barcelona, idem, idem! Já a prefeitura e alguns quantos comerciantes do centro da cidade... Esses estão é provando o amargo gostinho do prejuízo, com tanto quebra-quebra a cada comemoração.

Estive observando a “festa” popular num dia em que o time empatou (foi empate, mas isso lhes garantia uma vaga na final em um dos “trocentos” torneios em andamento). As famosas Ramblas estavam lotadas. Um mar de gente azul e grená. Era de ficar boquiaberto mesmo. E arrepiado. Só que em meia hora eu me cansei. Cansei até de ficar boquiaberta. Os gritos de guerra eram os mesmos; o hino também. Nem uma musiquinha pra animar... E a comemoração virou briga política. As bandeiras da Catalunya tiraram o protagonismo das bandeiras do Barça e só se ouvia “¡Madrid, cabrón, saluda el campeón!” (detalhe: o pobre do Madrid não tinha nada a ver com o jogo daquele dia. O adversário da vez tinha sido o Chelsea... Whatever). Como saí logo, não presenciei o desfecho. No outro dia, deu nos noticiários: lojas depredadas e saqueadas. Vidraças e vitrines destruídas. Contêineres de lixo viraram fogueira. Vandalismo a torto e a direito. Sete detidos. O de sempre, quando se trata de comemoração da torcida blaugrana. Isso sem falar no dia em que eles ganharam de 6x2 do Real Madrid! Certeza que os madrilenhos, naquele dia, se trancaram no armário. A sete chaves.

Aí veio a final da Copa del Rey. Ontem. Jesus amado, nunca havia visto nada parecido! Nadinha! O Barça ganhou de 4x1, com gols lindos após jogar muito futebol. E a comemoração...
Rapaz, o que era aquilo? Se na outra vez as Ramblas estavam lotadas... Nessa, me senti em pleno carnaval de Salvador. E no circuito Campo Grande, viu?!!! Estilo: olhar em volta e não ver brecha. Gente se multiplicando feito Gremlins por todos os lados, saindo de todas as ruas que desembocam na Plaza Catalunya e nas Ramblas.
A cada três metros, um big-susto com uma “bombinha”.

O Povo estava enlouquecido. (Pera, isso merece mais ênfase: enlouqueciiiiiiiiiido!!!). Gente, gente, gente e mais gente com os nervos à flor da pele, gritando, pulando, perguntando onde eu tinha conseguido comprar a minha cerveja e se esgoelando de cantar. Outra vez, o refrão mais entoado da noite foi “¡Madrid, cabrón, saluda el campeón!”. E mais uma vez não tinha nada a ver o c* com as calças: o jogo foi contra o Athletic de Bilbao...

Foi emocionante. Mais emocionante seria se não fosse um pouco assustador (digo “pouco” pra não assustar vocês). Muitas bombas, estraçalhar de vidros (vitrines, janelas de carros...), gente em cima dos lugares mais inapropriados (bancas de revista viraram palcos, enquanto postes, monumentos, semáforos e fontes viraram cadeiras...) e nem sinal de polícia. Mas isso só até as 1h40 da madrugada. Haviam-me informado que a hora “H” era 2h, mas parece que eles se adiantaram um tiquinho. Começou o corre-corre e, dessa vez, não era bomba. Ao avistar alguns capacetes no meio da multidão, percebemos que a galera da polícia tava entrando em ação. Sem contar conversa, cruzamos a praça e “tiramos pa’ casa”. Em menos de cinco minutos, havia DEZENAS de viaturas cercando TODAS as ruas que partem da praça central de Barcelona. O maior alarde. Era de pasmar. Entramos em um bar, tomamos uma última cervejinha e quando saímos... Aí sim, levamos um susto. A porta atrás de nós havia se trancado automaticamente e na nossa frente vimos camburões e carros espalhados pelo quarteirão, de onde saltavam policiais que pareciam ser o resultado de uma hibridação entre astronautas e Men in Black. Protegidos dos pés à cabeça, todos de preto e com um cassetete na mão – o que me fez ver que se tratava de um batalhão de choque. Isso tudo só pra evacuar o local? Ou já estavam detendo a depredação e seus causadores?

Nas imediações, muitas viaturas; muitas mesmo. Aposto que TODA a polícia da cidade estava em volta da Plaza Catalunya. Se houvesse um arrastão em outro ponto de Barcelona, não sobrava um policial pra dar conta da ocorrência (e por aqui tem arrastão, tem?). Engraçado é que durante a festa não se vê um policial sequer tentando evitar os “problemas”. Só quando a coisa já tá feia é que eles entram em campo. E jogando duro. Duríssimo.
Hoje, a polícia fazia o relatório do “prejú”. Sábado e domingo tem mais. Para ser o campeão da Liga Española por soma de pontos, o Barcelona só precisa que o Real Madrid perca a partida de sábado. Caso o Madrid vença, o Barça só precisa empatar no seu jogo de domingo. E dia 27 tem mais ainda: é a final da Champions League, contra o Manchester United. Será que daqui pra lá ainda sobra praça pra irem comemorar?

O que eu acho engraçado é como eles mudam quando se trata do seu futebol. Expelem uma paixão que não sei de onde vem (se eles paquerassem com o afinco com que torcem, eu fincava pé aqui... rsrsrs). Não vejo com freqüência demonstrações de carinho ou expressão de paixão nos casais. Uma pesquisa de uns muitos anos atrás afirmou que 70% dos espanhóis acreditavam que é necessário um tempo de convivência para se apaixonar por alguém (Hãn? Como assim? Esse povo já ouviu falar em paixões fulminantes, paixões de verão, ou paixão à primeira e segunda vista?). Mas aí os danados vêm e projetam, com toda a força e pressão, aquela afeição intrínseca ao ser humano (por menor que seja a dose contida na genética deles) em coisas como os esportes e os cachorrinhos de estimação. Eu, hein...!

Hoje a cidade está uma paz. Apesar de sentir um clima super calmo nas ruas e ver todos tão relaxadinhos, com uma expressão mista de alegria, satisfação e leveza – como se tivessem passado a noite fazendo sexo gostoso, com orgasmos múltiplos – não me convenci, para nada, de que aquilo ali se tratava de felicidade. Até a pele deles está mais reluzente hoje. Mesmo assim, continuo pensando que o que vi era estranho. De festa, nada (pelo menos no MEU conceito de “festa”). Muito vandalismo. Alegria misturada com fúria, revolta, rebeldia sem causa. Tudo junto e misturado. Às vezes me pergunto se eles já experimentaram, alguma vez, um sentimento genuíno de alegria.

E, quando converso com algum catalão sobre futebol, sou obrigada a escutar que na América Latina isso é uma LOUCURA: “Muito violento. Estão todos loucos”. Aqui, eles são APENAS vândalos. Tá bom, então! Fico com a minha violência, seguida de samba e cerveja gelada até o sol raiar. E muito beijo na boca. Mais o sexo gostoso, se o nível de cachaça permitir.

P.S.: Preciso confessar que, mesmo assim, não tem como não virar Barça. Desde pequenininha... rsrsrs

segunda-feira, 13 de abril de 2009

CambioS climáticoS


É abril e neva na Espanha.
É Abril. E neva. Na Espanha. ABRIL. NEVE. ESPANHA. Meu Deus!!!!!!! Onde vai parar esse planeta?! Tenham medo. A primavera, dissimulada, tá fazendo graça com a gente aqui no sul do continente. Enquanto na Alemanha dizem que faz um calor que te brônzeas! Vai entender.

O clima daqui de casa também mudou. Visita de pai, irmão, cunhada. Somados à mãe, irmão e a mim, que já estávamos. Barulho, confusão e discussão dobradas. Calor humano triplicado. Bastante afeto familiar (o incomparável afeto familiar, aquele que se demonstra entre tapas e beijos, mas que é o mais verdadeiro do mundo). Hoje um amigo-irmão entrou em êxtases aqui em casa, quando na cozinha comíamos cuscuz nordestino e conversávamos. "Meu Deus! Estou vendo a família reunida! Vocês são TODOS iguais". Eu sorri, achando que ele falava das nossas feições físicas e trejeitos. Ele continuou: "Vocês TODOS interrompem um ao outro nas conversas e reclamam porque o outro interrompeu, e daí voltam a interromper e a falar um por cima do outro!". Definição perfeita. Já podemos visualizar uma típica feira de domingo.

Ontem aprendi uma coisa nova. Os carocinhos do tomate são ruins pro apêndice. Eu achava que faziam mal aos rins... E que faziam bem à próstata. E fiquei bem feliz quando minha amiga pernambucana Élida me disse que eu nunca teria problemas de próstata.
Mas ontem fiz um "bocadillo" legal, gostoso, e meu pai se negou a comer por causa dos caroços de tomate, contando-me que tudo isso que é pequenininho iria direto pro apêndice, que virava uma espécie de "lixeirinho" do nosso organismo.
Isso não me preocupou muito... A cor escura do Ice Tea que venho tomando em substituição aos sucos de caixinha e aos refrigerantes (já que a cerveja, os vinhos, a vodca e similares continuam sendo insubstituíveis) me assusta beeem mais do que o tomate fresquinho e seus carocinhos.

Minha alimentação havia melhorado bastante, bastante meeesmo no ano passado, até que na minha última estadia no "País das Maravilhas" eu esqueci TOTALmente o que significava "alimentação saudável". E, um mês depois da volta à rotina, minha dieta vem piorando gradativamente. Ou melhorando - depende, mais uma vez, do ponto de vista. Câmbio no clima da minha geladeira.
Sinto-me um furacão, engolindo tudo; e todos dizem que pareço um poço sem fundo. Tô seguindo a dieta dos dias: tem dia que é de chocolate... Outros são dias de sanduíche... Dia de doces e Dia de pães se alternam. O dia de comer/beber fora (e comer bem) testando os cantinhos da cidade é sempre o melhor! E o dia de costela de porco assada pingando de gordura, farofa, coca-cola, sobremesa de morango com chantilly... Ui, esse dá até medo.
Dizem que somos o reflexo do que comemos. Neste momento, prefiro de verdade pensar que essa minha fase "furacão" e "buraco negro" é que são reflexos do meu estado de espírito antropófago. Calma, minha gente... Momento culturalmente antropófago... ;)
Enfim, só sei que sempre que vejo o marrom escuro do chá gelado de pêssego me doem os rins... Até que eu me lembro do preto betumem da coca-cola que desentope até pias... Aí eu relaxo e vou fazer uma salada verde pra acompanhar o chá e limpar o organismo. E também a consciência, tão pesada quanto o meu estômago.

segunda-feira, 9 de março de 2009

*New Generation*


Após os últimos incríveis 47 dias, tenho uma única coisa a dizer.

[Mentira, mentira, três vezes mentira. Quem bem me conhece - ou até quem me conheceu há apenas 5 minutos - já sabe que 72 horas de conversa seriam nadinha pra poucas novidades... Quem dirá pra tantas!]

Corrigindo, então... No impraticável resumo da última temporada, tenho uma coisa urgente pra salientar. Trata-se do pensamento mais (ou menos) produtivo que tive no último despertar, sentindo-me suja e maltrapilha dentro de um avião "estrangeiro" após um dia inteiro de viagens (se menos ou mais produtivo, é só uma questão de ponto de vista):

"O negócio é não perder o charme! Jamais!"

E já está! Tudo dará certo! Certeza! Ou, pelo menos, você sempre se sentirá ótima mesmo quando algo insistir em dar errado!

Aprendi... Tudo depende do nosso estado de espírito. Mesmo. ;)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

À espera do alívio


Depois de passar um tempo acampando na biblioteca, acho que estou de volta à vida real. Mas, como as notícias do “Jornal Buiú” estão mais para uma revista especializada em Pós-Graduação, conto um episódio breve ocorrido lá em casa. Ops, perdão: na biblioteca!

Perdida em meio a tantos corredores lotados de livros e mesas de estudo (disso não podemos reclamar: tiro todos os chapéus para essas bibliotecas, que realmente são coisa de “1º mundo”), resolvo perguntar a uma estudante/estudiosa como fazia para subir ao mezanino, onde me sinto mais confortável para escrever. A resposta foi curta, mas não grossa: “Por las escaleras”. Parei por 2 segundos. Eu já sabia que para ir acima, teria que subir as escadas! Afinal, apesar de ser uma versão moderna da Biblioteca de Hogwarts (Harry Potter), eu não esperava encontrar uma seção de vassouras para sair voando até o primeiro andar. Bom, o tom da menina foi super amável, o que me fez ver que ela não estava tirando onda com a minha cara. Então, susurrando, continuei: “Sí, sí... pero es que no las encuentro. ¡Estoy perdida!”. Então, com toda a boa vontade do mundo, ela me explicou onde ficavam as várias escadas da biblioteca.

Essa besteirinha de conversação me fez pensar: Eles são diretos demais, ou nós é que não sabemos formular as perguntas? Por essas e (muitas) outras situações é que creio que o raciocínio de cada povo difere de acordo com sua nacionalidade, sua cultura. A menina foi super amável! E respondeu direitinho à minha pergunta, não foi?! Mas será que não dava pra ela deduzir que eu estava buscando o lugar onde estava o “meio” para subir, visto que minha intenção era chegar lá em cima??? Não sei se os critico por não esticarem um pouquinho só o raciocínio, ou se os elogio por serem tão práticos e diretos; coisa que nós, os brasileiros em geral, definitivamente não somos.

Coube-me a carapuça: Perguntas idiotas, respostas cretinas! Hahaha

E haja “Seus Saraivas” nessa Europa de meu Deus!

Bom, essa foto é da maravilhosa biblioteca “Harry Potter”. E isso era o que eu vinha fazendo nesses últimos tempos. Agora estou colhendo os frutos, apesar de ainda estar física e mentalmente esgotada! Contagem regressiva: 4 dias para não ser mais chamada de Dona Luciana!!!

Só mais 4 dias para o suspiro de alívio.

¡LUZ!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Meus queridos diários...

Essa vida na Espanha me faz conhecer coisas e pessoas engraçadas, no mínimo.
Ou melhor, "diferentes", "estranhas", ou "figuras" mesmo. Boas e ruins. Uma dessas pessoas, do grupo das boas, é uma amiga especial. Não apenas no sentido de querida, mas também de particular, autêntica... Pra não dizer excêntrica... Trata-se da nossa vizinha de porta, Conchita, uma espanhola de seus 50 anos, cheiíssima de vida, humor, conhecimento, estórias e... presentinhos. Dos chocolates que ameaçam sua infeliz e malquista dieta a objetos que podem nos servir e que ela, com toda a boa vontade do mundo, nos oferece. Bom, eu poderia criar outro Blog pra falar dessa grande figura (rsrs) – professora (doutora) de Belas Artes e fã de Woody Allen – mas ela ficará para outros episódios...

O fato é que Conchita não deixa passar um aniversário em branco; sempre aparece com uma (ou várias) lembrancinha. Há exatos 10 dias, quando eu voltava da academia e já passava da meia-noite (já sendo, assim, dia 1º de novembro: meu aniversário), encontrei uma sacola pendurada na fechadura da porta do nosso apartamento, amarrada com uma fita azul que trazia dependurada uma bola de Natal (isso mesmo...), grande e vermelha. Não precisei pensar muito pra adivinhar quem havia deixado aquele regalo à minha espera, né?!
Dentro, uma caixinha continha um diário, com direito a duas chavezinhas. Fiquei bem surpresa, admito, ao receber um florido diário na minha 24ª primavera! Acho que desde que entrei na pré-adolescência não ganhava mais os "meus queridos diários". Um brinco lindo, singelo, também com motivo floral, acompanhou o presente.

E a verdade é que - coincidência ou não - o diário veio num momento mais que oportuno. A Conchita tem dessas coisas... Talvez sua sensibilidade a tenha feito perceber que o turbilhão de sentimentos pelos quais eu vinha correndo (desesperada, algumas vezes) nesses últimos meses necessitava de um depósito; um container onde eu pudesse despejá-los para depois organizá-los, digeri-los. Percepção essa que se deu através da atenta observação nas rápidas conversas que temos tido ultimamente e da leitura do meu olhar, no mínimo, ansioso.

Achei engraçado nos três primeiros segundos, mas logo em seguida me dei conta do grande presente que eu havia acabado de receber.
Engraçado é que uns 20 dias antes eu havia criado esse blog. Ainda andava meio parado - só havia a postagem inicial - apesar dos meus pensamentos não me terem dado descanso. Hoje, vesti e maquiei o blog, e inaugurei o meu querido diário!

Creio que é o começo de um retorno ao mundo das letras vivas. Letras com sentimento. Espero que seja!
(Texto retirado – e um pouco modificado – do Meu Querido Diário)
P.S.: Lembrei que no meu aniversário do ano passado a Conchita me deu uma "pluma" de presente. Uma caneta fina, para ocasiões especiais. Disse que era a cara da jornalista aqui... Coincidência?!